quinta-feira, 24 de maio de 2018

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

A ÉTICA DISCURSIVA DE HABERMAS

            Jürgen Habermas pertence a Escola de Frankfurt e como tal faz críticas à razão moderna iluminista, ou mais especificamente, à razão kantiana, alegando tratar-se de razão monológica, ou seja, fechada em si, subjetiva. Para vencer tal deficiência ele propõe a razão comunicativa, aquela que dialoga e leva em consideração a intersubjetividade. Deste modo, ele busca construir todo seu pensamento fundamentado nesta concepção e propõe, no campo da ética, uma ética discursiva. Importa, para ele, “recuperar a razão não repressora, mas comprometida com a vida e a emancipação humanas” (ARANHA, 2005, p. 231).
“O conceito de razão em Habermas não é o mesmo do iluminismo. Trata-se de uma razão comunicativa, que não existe pronta nem acabada, mas que se constrói a partir de uma argumentação que leva a um entendimento entre os indivíduos. É uma razão interpessoal e não subjetiva; é uma razão processual e não definitiva e acabada” (COTRIM, 2008, p. 255). Habermas faz uma distinção entre razão instrumental (quando alguém egoisticamente utiliza as coisas ou pessoas como meios para alcançar o seu propósito) e razão comunicativa (quando se recorre à linguagem com a intenção de alcançar o entendimento sem coação).
            A ética discursiva busca dar à ética um fundamento racional através da idéia de que a reflexão sobre os pressupostos da comunicação interpessoal permite identificar os princípios morais realmente irrenunciáveis que devem ser a base de toda convivência humana: o reconhecimento do outro, a não-coação da comunicação, a disposição para a solução de problemas e a fundamentação de normas através do discurso livre e igual. Esta modalidade ética está “fundada no diálogo e no consenso entre os sujeitos. O que se buscaria nesse diálogo é a razão que, tendo sido reconhecida pelos participantes do diálogo, sirva como fundamentação última para a ação moral” (COTRIM, 2008, p. 255). Ou seja, o discurso moral deve estender-se a todas as normas de ações passíveis de serem justificadas, ou fundamentadas racionalmente.
Habermas afirma que “uma moral racional se posiciona criticamente em relação a todas as orientações da ação, sejam elas naturais, auto evidentes, institucionalizadas ou ancoradas em motivos através de padrões de socialização. No momento em que uma alternativa de ação e seu pano de fundo normativo são expostos ao olhar crítico dessa moral, entra em cena a problematização. A moral da razão é especializada em questões de justiça e aborda em princípio tudo à luz forte e restrita da universalidade.” (HABERMAS, 1997, p. 149).
Apesar de discordar de Kant, Habermas é considerado um universalista ético, assim como Kant o foi. Isso significa que a ética por eles elaborada deve ter alcance sobre todos os seres racionais. Porém em Habermas percebemos que “a forma básica de seu pensamento é reflexiva, ou seja, autorreferente. [...] O ponto de partida da reflexão não é – como em Kant – o pensamento solitário do indivíduo, mas o discurso, a argumentação em comum, sempre mediatizada pela linguagem” (HELFERICH, 2006, p. 442). Portanto, uma norma só poderá ser considerada correta se todos os envolvidos estiverem de acordo em dar-lhe o seu consentimento.
Desse modo, a ética do discurso tenta detectar aquilo que nós sempre fizemos em processos comunicativos de entendimento, as precondições e os requisitos de um entendimento bem-sucedido; busca descrever os procedimentos do entendimento entre iguais de maneira que o resultado possa ser considerado justo. Para a ética do discurso a abertura ao outro, a tolerância, o respeito e o diálogo são imprescindíveis para a boa convivência no mundo plural em que nos encontramos. A globalização e a diversidade de culturas exigem, para que possamos viver bem na sociedade atual, que respeitemos e dialoguemos com todos, mormente o diferente.
Referências
ARANHA, Maria Lúcia de Arruda; MARTINS, Maria Helena Pires. Temas de Filosofia. 3. ed. São Paulo: Moderna, 2005. 344 p.
COTRIM, Gilberto. Fundamentos da Filosofia: História e grandes temas. 16. ed. São Paulo: Saraiva, 2008.
HABERMAS, Jürgen. Direito e Democracia: entre facticidade e validade. Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro, 2v., 1997.
HELFERICH, Christoph. História da Filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 2006.

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

A importância da proairesis


     Aristóteles dividiu as virtudes em éticas (agir corretamente) e dianoéticas (deliberar corretamente). As virtudes dianoéticas têm a ver com as escolhas acertadas. No nosso dia-a-dia fazemos inúmeras escolhas, algumas não têm impacto ético, mas outras podem ter. Além de fazermos escolhas devemos ter a firmeza para tentar cumprir com aquilo que elas se propõem. Escolher acertadamente, na língua grega, chama-se proairésis.
       Segundo Armendane (2010), Aristóteles considerava que a ação está diretamente relacionada com o desejo (órexis), com o querer e com a vontade (boúlesis) humana. O desejo humano consiste no ansiar por um fim previamente estabelecido: a felicidade (eudaimonia). De acordo com Aristóteles, um ato só é voluntário quando quem o pratica conhece todas as circunstâncias particulares inerentes à sua ação.
       Aquele que confiar na parte racional da decisão deve preparar-se para uma atitude intelectual, denominada phrônesis, que significa prudência. A phrônesis era, de acordo com Aristóteles, a primeira virtude dianoética, a qual trata de estabelecer a medida razoável entre os extremos, para que o ser humano possa agir em conformidade com a reta razão. Ela representa a ética suprema por excelência e indica a habilidade do homem sábio de deliberar bem sobre o que é bom e conveniente para si mesmo, não apenas em relação a um aspecto particular, mas, sobretudo, acerca das coisas que nos levam a viver bem por toda a vida. Para Aristóteles, o homem prudente se constitui no modelo de realização concreta do bem.
      Analisando a contribuição dessas ideias de Aristóteles para os dias de hoje, percebemos que todos os dias, à quase todo momento, fazemos escolhas. Algumas são aparentemente simples, como dirigir após ingerir bebida alcoólica; divertir-se ao lado de pessoas que desconhecem limites (estar no lugar errado, na hora errada e com pessoas erradas); acobertar colegas que cometem pequenos delitos sendo conivente com os mesmos; não devolver, ou nem tentar devolver, objetos encontrados; não arcar com suas despesas quando isso é possível; deixar dívidas vencidas e usar o dinheiro para outra finalidade; vender o voto; ignorar ajuda quando está ao nosso alcance; não assumir a responsabilidade por atos falhos; etc. É claro que também existem escolhas mais complexas e prejudiciais, as quais não acreditamos que sejam inerentes ao caráter de nossos acadêmicos. São escolhas feitas deliberadamente com o propósito de causar o mal aos outros.
       Todas as nossas escolhas poderão ter impacto sobre a nossa vida, permitindo-nos aproximação ou afastamento da felicidade. Existem escolhas irremediáveis que trazem consequências irreparáveis e aniquilam completamente a felicidade dos seus agentes e que, portanto, tanto quanto possível, devem ser evitadas.

Bibliografia
ARMENDANE, Geraldo das Dores de. A Teoria da Ação de Aristóteles e a Noção Gramatical de Vontade no Segundo Wittgenstein. In: Cadernos UFS Filosofia. Ano 6. Fasc. XII, Vol. 8, agosto a dezembro de 2010, pp. 75-83.

sábado, 11 de novembro de 2017

Sobre política e jardinagem

RUBEM ALVES

De todas as vocações, a política é a mais nobre. Vocação, do latim "vocare", quer dizer "chamado". Vocação é um chamado interior de amor: chamado de amor por um "fazer". No lugar desse "fazer" o vocacionado quer "fazer amor" com o mundo. Psicologia de amante: faria, mesmo que não ganhasse nada.
"Política" vem de "polis", cidade. A cidade era, para os gregos, um espaço seguro, ordenado e manso, onde os homens podiam se dedicar à busca da felicidade. O político seria aquele que cuidaria desse espaço. A vocação política, assim, estaria a serviço da felicidade dos os moradores da cidade.
Talvez por terem sido nômades no deserto, os hebreus não sonhavam com cidades; sonhavam com jardins. Quem mora no deserto sonha com oásis. Deus não criou uma cidade. Ele criou um jardim. Se perguntássemos a um profeta hebreu "o que é política?", ele nos responderia: "A arte da jardinagem aplicada às coisas públicas".
O político por vocação é um apaixonado pelo grande jardim para todos. Seu amor é tão grande que ele abre mão do pequeno jardim que ele poderia plantar para si mesmo. De que vale um pequeno jardim se a sua volta está o deserto? É preciso que o deserto inteiro se transforme em jardim.
Amo a minha vocação, que é escrever. Literatura é uma vocação bela e fraca. O escritor tem amor, mas não tem poder. Mas o político tem. Um político por vocação é um poeta forte: ele tem o poder de transformar poemas sobre jardins em jardins de verdade.
A vocação política é transformar sonhos em realidade. É uma vocação tão feliz que Platão sugeriu que os políticos não precisam possuir nada: bastar-lhes-ia o grande jardim para todos. Seria indigno que o jardineiro tivesse um espaço privilegiado, melhor e diferente do espaço ocupado por todos. Conheci e conheço muitos políticos por vocação. Sua vida foi e continua a ser um motivo de esperança.
Vocação é diferente de profissão. Na vocação a pessoa encontra a felicidade na própria ação. Na profissão o prazer se encontra não na ação. O prazer está no ganho que dela se deriva. O homem movido pela vocação é um amante. Faz amor com a amada pela alegria de fazer amor. O profissional não ama a mulher. Ele ama o dinheiro que recebe dela. É um gigolô.
Todas as vocações podem ser transformadas em profissões. O jardineiro por vocação ama o jardim de todos. O jardineiro por profissão usa o jardim de todos para construir seu jardim privado, ainda que, para que isso aconteça, ao seu redor aumentem o deserto e o sofrimento.
Assim é a política. São muitos os políticos profissionais. Posso, então, enunciar minha segunda tese: de todas as profissões, a política é a mais vil. O que explica o desencanto total do povo, em relação à política. Guimarães Rosa, questionado por Günter Lorenz se ele se considerava político, respondeu: "Eu jamais poderia ser político com toda essa charlatanice da realidade. Ao contrário dos "legítimos" políticos, acredito no homem e lhe desejo um futuro. O político pensa apenas em minutos. Sou escritor e penso em eternidades. Eu penso na ressurreição do homem".
Quem pensa em minutos não tem paciência para plantar árvores. Uma árvore leva muitos anos para crescer. É mais lucrativo cortá-las.
Nosso futuro depende dessa luta entre políticos por vocação e políticos por profissão. O triste é que muitos que sentem o chamado da política não têm coragem de atendê-lo, por medo da vergonha de ser confundidos com gigolôs e de ter de conviver com gigolôs.
Escrevo para você, jovem, para seduzi-lo à vocação política. Talvez haja um jardineiro adormecido dentro de você. A escuta da vocação é difícil, porque ela é perturbada pela gritaria das escolhas esperadas, normais, medicina, engenharia, computação, direito, ciência. Todas elas são legítimas, se forem vocação. Mas todas elas são afunilantes: vão colocá-lo num pequeno canto do jardim, muito distante do lugar onde o destino do jardim é decidido. Não seria muito mais fascinante participar dos destinos do jardim?
Acabamos de celebrar os 500 anos do Descobrimento do Brasil. Os descobridores, ao chegar, não encontraram um jardim. Encontraram uma selva. Selva não é jardim. Selvas são cruéis e insensíveis, indiferentes ao sofrimento e à morte. Uma selva é uma parte da natureza ainda não tocada pela mão do homem.
Aquela selva poderia ter sido transformada num jardim. Não foi. Os que sobre ela agiram não eram jardineiros, mas lenhadores e madeireiros. Foi assim que a selva, que poderia ter se tornado jardim, para a felicidade de todos, foi sendo transformada em desertos salpicados de luxuriantes jardins privados onde poucos encontram vida e prazer.
Há descobrimentos de origens. Mais belos são os descobrimentos de destinos. Talvez, então, se os políticos por vocação se apossarem do jardim, poderemos começar a traçar um novo destino. Então, em vez de desertos e jardins privados, teremos um grande jardim para todos, obra de homens que tiveram o amor e a paciência de plantar árvores em cuja sombra nunca se assentariam.


Rubem Alves, 66, educador, escritor e psicanalista, é professor emérito da Universidade Estadual de Campinas. É autor de "Entre a Ciência e a Sapiência: o Dilema da Educação" (Edições Loyola), entre outras obras.
Extraído de http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz1905200009.htm Acesso em 11.11.17 - às 8h54m.

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Descartes e a utilidade da Filosofia

Seguidamente faria notar a utilidade desta Filosofia e mostraria que, uma vez que se estende a tudo o que o espírito humano consegue saber, devemos acreditar que apenas ela nos distingue dos mais selvagens e bárbaros, e que uma nação é tanto mais civilizada e polida quanto melhor os seus homens filosofarem: e assim, o maior bem de um Estado é possuir verdadeiros filósofos. Além disso, para cada homem em particular é útil não só viver com os que se aplicam a tal estudo, mas também que é incomparavelmente melhor que cada qual se aplique a ele, pois vale muito mais servirmo-nos dos nossos próprios olhos para nos conduzirmos e desfrutarmos, por seu intermédio, da beleza das cores e da luz, do que mantê-los fechados e dispor apenas de si próprio para se conduzir. Ora, viver sem filosofar é ter os olhos fechados e nunca procurar abri-los; e o prazer de ver todas as coisas que a nossa vista descobre não é nada comparado com a satisfação que advém do conhecimento daquilo que se encontra pela Filosofia. Finalmente, este assunto é mais necessário para regrar os costumes e nos conduzirmos nesta vida do que o uso dos olhos para nos guiar os passos. Os brutos animais que apenas possuem o corpo para conservar ocupam-se continuamente na procura de alimentos; mas os homens, cuja parte principal é o espírito, deveriam empregar os seus principais cuidados na procura da sabedoria que é o seu verdadeiro alimento. Também estou convencido de que muitos não deixariam de o fazer se tivessem a esperança de o conseguir e se soubessem quanto são capazes disso. Não existe alma, por menos nobre que seja, que, embora fortemente ligada aos objetos dos sentidos, não se afaste algumas vezes deles para desejar outro bem maior, apesar de frequentemente ignorar em que consiste. Aqueles que a sorte mais favorece com saúde, honras e riquezas não estão mais isentos de tal desejo do que os outros; pelo contrário, estou persuadido de que estes suspiram com mais ardor por um bem mais soberano do que todos aqueles que já possuem. (DESCARTES, René. Princípios da Filosofia. Trad. João Gama. Lisboa: Edições 70, s/d. p. 16).

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

O ENSINO DA ÉTICA EM SAÚDE

Maria de Lourdes de Souza
 Vicente Volnei de Bona Sartor
Marta Lenise do Prado

O ensino da ética, na maioria das áreas do saber, e principalmente na saúde, não tem acompanhado a ética construída e exercitada no contexto das necessidades da sociedade. Na ampla maioria dos currículos em saúde, este assunto classifica-se no quadro da insignificância. Nos cursos regulares de saúde, por exemplo, a ética aparece como disciplina optativa e em seminários pluridisciplinares. Uma das explicações desta concepção de ensino da ética na formação de profissionais em saúde advém do fato de que há mais interesse nas técnicas do que na ética, como se essa não fosse inerente ao cotidiano desses profissionais. Este ensino em geral se dá por meio dos juristas e filósofos, que na América Latina nem sempre estão inseridos nos cursos da área da saúde. A preferência pelas técnicas e a insuficiência de profissionais qualificados das diversas áreas do conhecimento revelam carência epistemológica para pensar a Saúde no âmbito da ética.
O rápido desenvolvimento de tecnologias, que foram mais inovadoras nos últimos 25 anos do que o tinham sido nos anteriores e deram origem a situações inéditas de decisão moral, revelam a urgência de se discutir e preparar profissionais para desafios inusitados. Diversas e sofisticadas tecnologias de cuidados intensivos permitem manter vivo um recém-nascido com múltiplas e graves afecções ou prolongar a vida de um doente terminal. Quando é ético administrar ou interromper estes cuidados intensivos? Noutros tempos, o problema não se punha à avaliação no campo da saúde e com implicações para o profissional dessa área. Na ausência de possibilidades técnicas, a morte inevitável encarregava-se de resolver a questão.
O mesmo se pode dizer, dentre outros, de tecnologias que permitem o transplante de órgãos, a inseminação artificial in vitro, o diagnóstico pré-natal e a terapia genética. À medida que a ciência transfere ao homem poderes antes reservados à fatalidade da natureza, no que diz respeito ao nascer, viver e morrer, pergunta-se até que ponto o exercício desses poderes - tecnicamente viáveis – serão eticamente aceitáveis. Como por exemplo: prever se uma criança irá ou não nascer com grave doença genética que possa afetar futuramente a sua vida e saúde. Dependendo da orientação ética, as tecnologias médicas e terapêuticas são alvos de críticas e, na sua maioria, passam a ser analisadas a partir de comitês hospitalares, criados especialmente para resolver problemas éticos que, por extensão, têm grande peso na tomada de decisão clínica.
Uma outra razão pela qual a ética no campo das ciências ficou relegada a segundo plano baseou-se na crença de que ciência e tecnologia proveriam continuamente conforto e benefício indefinidamente. Atividades científicas conduzidas até recentemente consideravam-se value-free and essentially unproblematic. O ensino formal de questões éticas relacionadas com ciência e tecnologia ou estudos com este propósito raramente tem sido alvo do sistema educacional.
Nesse sentido, os recentes avanços da biotecnologia criaram desafios éticos, estimulando novos ensinamentos na disciplina de ética em saúde e maior consciência nas questões éticas envolvidas nas decisões coletivas. Isto tem contribuído não só para a solução de problemas, mas, talvez, e até com mais importância, para o desenvolvimento de modalidades e métodos de abordar as questões éticas de modo a promover uma nova racionalidade diante da vida.
Um dos aspectos mais significativos que dificultam o ensino da ética em saúde diz respeito ao problema da identificação do agente. Os profissionais de formação em saúde e que nela se especializam, particularmente em áreas da saúde pública, podem, simplesmente, não ter experiência para reconhecer um problema ético quando com ele se defrontam. Em se identificando com o seu objeto de estudo, esquecem-se, por força desta mesma formação e experiência acadêmicas, a compreensão mais estendida pela vida, autonomia individual e privacidade. Ou seja, de uma visão ampliada e abrangente dos desafios éticos na contemporaneidade e da vida humana associada em contextos sócio-comunitários.
Como vimos, a carência epistemológica e o predomínio da tecnologia contribuem para colocar a ética como disciplina na retaguarda das preocupações referentes à saúde. Assim, o modo de se inserir a ética nos cursos da saúde, em geral, submete-se às disponibilidades de docentes e necessidades históricosocial, ora dando-lhe um sentido magistral – caráter metaético – ora submetendo-a unicamente a estudos de “casos” – ilustração exagerada sem vínculo teórico – o que revelam inconsistência quando a questão envolve a vida e a morte de uma pessoa. A postura metaética e os “casos”, no entanto, internalizam duas desvantagens pedagógicas: a de postergar a própria natureza da ética, de um lado, e a de subordinar os níveis de questionamentos éticos aos ditames das normas. Coloca-se a ética sob o signo imperativo das regras e/ou sob o signo da interrogação, problematizando-a sem regulamentá-la, ainda que a contínua indagação ética das práticas profissionais seja necessária, ou seja, não há como negar que nenhuma prática social pode passar ao largo da ética construída na sociedade.
Um dos pontos chaves é de que o ensino da ética, como qualquer outra disciplina, transcenda a questão pedagógica, embora seja muito importante o seu suporte. O que está em causa é saber se queremos que os profissionais “possuam” ao fim de sua formação as normas, as regras, o código que deve reger suas práticas, ou se desejamos que os profissionais tenham desenvolvido a competência ética para problematizar e de constantemente responder às questões éticas em termos que sejam, ao mesmo tempo, rigorosos e pertinentes. Em outras palavras: o domínio e a sustentação de competências e habilidades, principalmente de valores em termos de posicionar-se diante de diferentes contextos e princípios que envolvem o nascer, o viver e o morrer.
Como se pode ensinar ética no contexto da saúde sem colocar a questão do sentido múltiplo dado à vida e à morte? Sem se interrogar sobre as implicações das mudanças da sociedade, ligadas ao desenvolvimento das tecnologias, às crises econômicas que se sucedem ininterruptamente, às mudanças demográficas modificando os relacionamentos intergeracionais, interétnicos e interculturais? Daí advém que a construção da ética nas áreas da saúde envolve a filosofia, a hermenêutica, a religião, as tecnologias e a antropologia, para compreender a magnitude do cuidado e a responsabilidade com o humano em sociedade.


(Disponível em http://www.scielo.br/pdf/tce/v14n1/a10v14n1 Acesso em 06.02.15 - Às 19h08m [Modificado]).

sábado, 6 de fevereiro de 2016

SUBSÍDIOS PARA UMA ÉTICA DA RESPONSABILIDADE EM ENFERMAGEM

SUBSÍDIOS PARA UMA ÉTICA DA RESPONSABILIDADE EM ENFERMAGEM
Maria de Lourdes de Souza
 Vicente Volnei de Bona Sartor
Marta Lenise do Prado
(Disponível em http://www.scielo.br/pdf/tce/v14n1/a10v14n1
Acesso em 06.02.15 - Às 19h08m [Modificado])
INTRODUÇÃO
A ética propõe-se a compreender os critérios e os valores que orientam o julgamento da ação humana em suas múltiplas atividades, principalmente aquelas que dizem respeito ao trabalho e à vida humana associada. Ética aqui tratada como disciplina. Neste sentido, se refere à reflexão crítica sobre o comportamento humano, interpreta, discute, problematiza e investiga valores e princípios. Procura respostas ao que “deve ser feito”, e não ao “que pode ser feito” do ponto de vista das razões de se fazer ou deixar de fazer, de aprovar ou desaprovar algo, do que é bom e do que é o mal, do justo e do injusto.
Ao longo da formação das sociedades, pessoas, organizações, associações, sindicatos, entidades representativas das ocupações sociais (dentre outros: médicos, economistas, administradores, engenheiros, assistentes sociais, enfermeiros), as categorias de trabalho e a classe política têm estabelecido formas de conduta capazes de avaliarem se suas ações são ou não corretas. Ou seja, normas valorativas de conduta. Formas de conduta essas que dizem respeito à própria condição de existência individual e social. Muitas são as respostas para esta questão, no âmbito da Enfermagem, várias aplicações podem ser visualizadas examinando-as em suas principais correntes de pensamento e nos princípios eleitos.
Avaliar se uma ação é correta ou não, varia de acordo com a escola filosófica que a postula, bem como os argumentos pelas quais uma ação deve ou não ser aceita em certo tempo e em determinada sociedade. Variar, de acordo com escolas e argumentos, no entanto, não nos induz necessariamente ao relativismo de que “hoje não pode e amanhã já pode” segundo as paixões favoráveis e momentâneas, principalmente no exercício do poder público. Ao contrário, há consciência da necessidade da reflexão de quais valores devem ser agregados nas atividades humanas.
Nesta reflexão, dar-se-á proeminência à ética normativa, pretendendo responder à incitante pergunta “o que devemos fazer” no âmbito do cuidar em Enfermagem e na vida humana associada saudável e progressista. O caráter predominante diz respeito à ética aplicada para resolução de problemas éticos cotidianos, isto é, procura resolver problemas práticos de acordo com os princípios da ética normativa. A ética normativa, em geral, não se detém em apenas numa escola ética na análise e no exame dos procedimentos de uma ação correta ou incorreta. Ela se vale das diversas éticas, e suas variações, como: a utilitarista – avaliação das consequências – bem como da deontológica – avaliação a partir do dever.
CONTEXTUALIZAÇÃO
O cuidado manifesta-se na preservação com o melhor potencial saudável da espécie humana e depende de uma concepção ética que contemple a vida como um bem valioso em si. Por ser um conceito de amplo espectro, cuidar incorpora diversos significados por vezes indefinidos e confusos. Ora quer dizer solidarizar-se, evocando um certo tipo de relacionamento compartilhado entre cidadãos em comunidades, ora, dependendo das circunstâncias e da doutrina adotada, transmite uma noção de obrigação, dever e compromisso social num empreendimento compartilhado. Nessas duas acepções, cuidar implica colocar-se no lugar do outro, geralmente em situações desvantajosas, quer na dimensão pessoal quer na social.
O cuidado em Enfermagem, na concepção de colocar-se no lugar do outro, aproxima-se dos fundamentos do humanismo latino ao caracterizar a humanidade do homem pela sua capacidade de colaboração para com o próximo e sua utilidade às demais pessoas. Nesta concepção, prestar serviços quer na dimensão pessoal quer na social é uma das virtudes mais dignas entre os homens. Assim, compartilhar com as demais pessoas é uma exigência dos humanistas, para os quais o homo faber jamais se dissociou do bem coletivo, ou seja, do cuidado de enfermagem. Convém destacar que o cuidado não é uma atitude ou um ato em si mesmo. É uma concepção da qual derivam sentimentos, atitudes e ações, como vontades, desejos, inclinações e impulsos. O cuidado reflete uma atitude do homem perante o mundo, perante os outros, perante si mesmo e perante a existência em geral. O cuidado significa desvelo, solicitude, diligência, zelo, atenção, e se concretiza no contexto das relações sociais. Cuidamos quando estabelecemos relações de respeito à autonomia, à individualidade e aos direitos dos seres humanos. Mas se todos cuidam, a que nos referimos quando falamos em cuidado de Enfermagem? O cuidado, particularmente no que se refere às pessoas, tem sido apontado como o objeto epistemológico da Enfermagem. É um modo de estar com o outro, no que se refere a questões especiais da vida das pessoas, dentre estas a promoção e a recuperação da saúde, o nascimento e a própria morte.
A ideia de ajudar os outros na solução de problemas ou de um indivíduo colocar-se no lugar do outro, na maioria das sociedades, ainda permanece válida, como referência e conteúdo básico da noção de cuidado em Enfermagem no século XXI, cujo fundamento é o de integrar as pessoas em torno do bem comum e manter o elo social. Nesse sentido, cuidar e solidarizar-se significam comprometimento e engajamento político-cultural, prevenindo rupturas da e na sociedade e contribuindo para sua superação. Nesta linha de raciocínio, os temas que traduzem o comprometimento e o engajamento social se referem, basicamente, à preservação:
a) da espécie humana, envolvendo a compaixão e a ternura;
b) do social e da política, entendendo a diversidade de convívio democrático em ambientes político-culturais diferentes;
c) da cultura global, compreendendo a pluralidade cultural e interétnica;
d) da vida ecológica e cosmológica, participando da sustentabilidade e do cuidado para com as futuras gerações.
A noção subjacente do engajamento e do comprometimento considera a atividade do cuidado de Enfermagem valiosa por si mesma, para diferenciar-se do cuidado como função instrumental no âmbito das ocupações. O cuidado é parte integrante do processo de sobrevivência da vida humana associada. Dessa noção advém o entendimento do valor intrínseco da vida, que ocupa um lugar central no conjunto dos valores da humanidade.
O valor intrínseco da vida, bem como sua centralidade no conjunto de valores da humanidade, abarca outras instâncias da vida humana, animal e vegetal, pois quaisquer formas e/ou estados da vida transmitem a ideia de algo valioso. O sentido do que seja valioso, em geral, encontra múltiplas interpretações éticas. Uma das formas de interpretar o sentido valioso da vida consiste categorizá-lo em instrumental, subjetivo e intrínseco.
Vida humana como valor instrumental diz respeito o quanto a vida de cada um serve aos interesses das demais pessoas. Algo é instrumentalmente importante se seu valor depender de sua utilidade e de sua capacidade para ajudar as pessoas a obter o que desejam, tal qual o dinheiro, os medicamentos, entre outros. Caso contrário, são simplesmente bens disponíveis sem utilidade. São instrumentais valiosos para a pessoa em particular. Ou seja, o quanto a qualidade e a riqueza de uma vida saudável e empreendedora sugere o bem-estar de outras. O aspecto da instrumentalidade sugere admiração e desejo de adquirir o mesmo para si por meio de um esforço baseado em seu próprio mérito. Neste sentido, a competição é saudável, pois uma característica fundamental dos seres humanos consiste em realizar sua natureza numa situação de livre união social com outros indivíduos.
Vida humana como valor subjetivo refere-se o quanto a pessoa mede seu valor para ela mesma, ou seja, em termos de até que ponto ela quer esta vida e até que ponto estar vivo é bom para cada pessoa. Inclui-se, aqui, o feto por não ter condições físicas, morais e intelectuais para fazer seu plano racional de vida. Observe-se que cada sociedade poderá incluir diferentes entes sociais, permanente ou temporariamente, nessa condição.
Vida humana como valor intrínseco refere-se ao valor subjetivo que uma vida tem para a pessoa de cuja vida se trata. Parte-se do pressuposto de que há um desejo dos homens em tratar uns aos outros não apenas como meios, mas como finalidades em si mesmos.
Desse raciocínio, o instrumental geralmente se associa à subjetividade da pessoa, uma vez que só vale para aquela pessoa que deseja esse bem. Assim também a vida humana. Ela pode ter um valor subjetivo na medida em que a pessoa estabelece seu valor para ela mesma, ou seja, em termos de até que ponto ela quer esta vida e o quanto estar vivo e saudável e bom.
Pessoa aqui entendida como indivíduo livre, igual,  moral, razoável e cooperante ao longo de sua vida numa sociedade bem-ordenada. Portanto, de um indivíduo autônomo.
Essas três categorias estão presentes na arte e nos fundamentos do cuidado em Enfermagem, articulando-as e valorizando-as, pois uma das premissas da vida humana associada, jamais posta em dúvida nas atitudes e nas ações humanas, consiste em sobreviver e prosperar.
O cuidar em Enfermagem, a partir dessas premissas, se identifica por ser universal e intrinsecamente valioso e básico para a promoção da saúde. Esta é um bem reconhecido como aquele que viabiliza sobreviver e prosperar. Se o ser humano revela um valor em si e a vida em sociedade requer a promoção da saúde para o desempenho de suas atividades na polis, pelo cuidado em Enfermagem é possível diagnosticar, reconhecer, implementar e avaliar estratégias pensadas a partir do cliente, e, por conseguinte estimular as possibilidades de sobrevivência e a prosperidade da vida humana associada. São múltiplas as atividades do Enfermeiro em promover e restaurar o bem-estar físico, o psíquico e o social6, bem como as capacidades para encontrar forças e possibilidades de funcionamento factíveis para a pessoa7, o que Florence denominou de poder vital. Nessa perspectiva, o cuidar em Enfermagem insere-se no âmbito da intergeracionalidade, pois opera com um conjunto de ações, procedimentos, propósitos e eventos que se prolongam ao longo do tempo geracional. Abraça, pois, diferentes gerações, imprimindo-lhes realização e promovendo bem-estar.
O postulado do longo tempo reflete, por si só, uma releitura da justiça tipicamente temporal em duas direções: 1) a continuidade da vida humana associada ao longo do tempo; 2) sentimento intuitivo de que os seres sob os cuidados da Enfermagem são seres cósmicos e, simultaneamente, sujeitos de direitos e deveres de uns para com os outros. Ao compartilhar a sobrevivência e responder pela prosperidade da humanidade saudável, o cuidado se orienta pela ética da responsabilidade. O cuidado em Enfermagem orientou-se por diversas éticas. Neste texto, dar-se-á prioridade ao desenvolvimento e à possível aplicação prática da ética da responsabilidade. Assim, por ser partícipe da ideia da continuidade da vida humana associada com saúde, a Enfermagem, produz um valor em si e sugere que as gerações futuras dêem continuidade às obras coletivas nos domínios artísticos, intelectual, físico-corporal e científico das gerações anteriores, bem como promova expectativas de bem-estar às gerações futuras, da sociedade e da própria enfermagem.
O ENSINO DA ÉTICA EM SAÚDE
O ensino da ética, na maioria das áreas do saber, e principalmente na saúde, não tem acompanhado a ética construída e exercitada no contexto das necessidades da sociedade. Na ampla maioria dos currículos em saúde, este assunto classifica-se no quadro da insignificância. Nos cursos regulares de saúde, por exemplo, a ética aparece como disciplina optativa e em seminários pluridisciplinares. Uma das explicações desta concepção de ensino da ética na formação de profissionais em saúde advém do fato de que há mais interesse nas técnicas do que na ética, como se essa não fosse inerente ao cotidiano desses profissionais. Este ensino em geral se dá por meio dos juristas e filósofos, que na América Latina nem sempre estão inseridos nos cursos da área da saúde. A preferência pelas técnicas e a insuficiência de profissionais qualificados das diversas áreas do conhecimento revelam carência epistemológica para pensar a Saúde e a Enfermagem no âmbito da ética.
O rápido desenvolvimento de tecnologias, que foram mais inovadoras nos últimos 25 anos do que o tinham sido nos anteriores e deram origem a situações inéditas de decisão moral, revelam a urgência de se discutir e preparar profissionais para desafios inusitados. Diversas e sofisticadas tecnologias de cuidados intensivos permitem manter vivo um recém-nascido com múltiplas e graves afecções ou prolongar a vida de um doente terminal. Quando é ético administrar ou interromper estes cuidados intensivos? Noutros tempos, o problema não se punha à avaliação no campo da saúde e com implicações para a Enfermagem. Na ausência de possibilidades técnicas, a morte inevitável encarregava-se de resolver a questão.
O mesmo se pode dizer, dentre outros, de tecnologias que permitem o transplante de órgãos, a inseminação artificial in vitro, o diagnóstico pré-natal e a terapia genética. À medida que a ciência transfere ao homem poderes antes reservados à fatalidade da natureza, no que diz respeito ao nascer, viver e morrer, pergunta-se até que ponto o exercício desses poderes - tecnicamente viáveis – serão eticamente aceitáveis. Como por exemplo: prever se uma criança irá ou não nascer com grave doença genética que possa afetar futuramente a sua vida e saúde. Dependendo da orientação ética, as tecnologias médicas e terapêuticas são alvos de críticas e, na sua maioria, passam a ser analisadas a partir de comitês hospitalares, criados especialmente
para resolver problemas éticos que, por extensão, têm grande peso na tomada de decisão clínica.
Uma outra razão pela qual a ética no campo das ciências ficou relegada a segundo plano baseou-se na crença de que ciência e tecnologia proveriam continuamente conforto e benefício indefinidamente. Atividades científicas conduzidas até recentemente consideravam-se “value-free and essentially unproblematic”. O ensino formal de questões éticas relacionadas com ciência e tecnologia ou estudos com este propósito raramente tem sido alvo do sistema educacional.
Nesse sentido, os recentes avanços da biotecnologia criaram desafios éticos, estimulando novos ensinamentos na disciplina de ética em saúde e maior consciência nas questões éticas envolvidas nas decisões coletivas. Isto tem contribuído não só para a solução de problemas, mas, talvez, e até com mais importância, para o desenvolvimento de modalidades e métodos de abordar as questões éticas de modo a promover uma nova racionalidade diante da vida.
Um dos aspectos mais significativos que dificultam o ensino da ética em saúde diz respeito ao problema da identificação do agente. Os profissionais de formação em saúde e que nela se especializam, particularmente em áreas da saúde pública, podem, simplesmente, não ter experiência para reconhecer um problema ético quando com ele se defrontam. Em se identificando com o seu objeto de estudo, esquecem-se, por força desta mesma formação e experiência acadêmicas, a compreensão mais estendida pela vida, autonomia individual e privacidade. Ou seja, de uma visão ampliada e abrangente dos desafios éticos na contemporaneidade e da vida humana associada em contextos sócio-comunitários.
Como vimos, a carência epistemológica e o predomínio da tecnologia contribuem para colocar a ética como disciplina na retaguarda das preocupações em Enfermagem. Assim, o modo de se inserir a ética nos cursos de Enfermagem, em geral, submete-se às disponibilidades de docentes e necessidades históricosocial, ora dando-lhe um sentido magistral – caráter metaético - ora submetendo-a unicamente a estudos de “casos” – ilustração exagerada sem vínculo teórico – o que revelam inconsistência quando a questão envolve a vida e a morte de uma pessoa. A postura metaética e os “casos”, no entanto, internalizam duas
desvantagens pedagógicas: a de postergar a própria natureza da ética, de um lado, e a de subordinar os níveis de questionamentos éticos aos ditames das normas. Coloca-se a ética sob o signo imperativo das regras e/ou sob o signo da interrogação, problematizando-a sem regulamentá-la, ainda que a contínua indagação ética das práticas profissionais seja necessária, ou seja, não há como negar que nenhuma prática social pode passar ao largo da ética construída na sociedade.
Um dos pontos chaves é de que o ensino da ética, como qualquer outra disciplina, transcenda a questão pedagógica, embora seja muito importante o seu suporte. O que está em causa é saber se queremos que os profissionais “possuam” ao fim de sua formação as normas, as regras, o código que deve reger suas práticas, ou se desejamos que os profissionais tenham desenvolvido a competência ética para problematizar e de constantemente responder às questões éticas em termos que sejam, ao mesmo tempo, rigorosos e pertinentes. Em outras palavras: o domínio e a sustentação de competências e habilidades, principalmente de valores em termos de posicionar-se diante de diferentes contextos e princípios que envolvem o nascer, o viver e o morrer.
Como se pode ensinar ética no contexto da saúde sem colocar a questão do sentido múltiplo dado à vida e à morte? Sem se interrogar sobre as implicações das mudanças da sociedade, ligadas ao desenvolvimento das tecnologias, às crises econômicas que se sucedem ininterruptamente, às mudanças demográficas modificando os relacionamentos intergeracionais, interétnicos e interculturais? Daí advém que a construção da ética em enfermagem envolve a filosofia, a hermenêutica, a religião, as tecnologias e a antropologia, para compreender a magnitude do cuidado de enfermagem e a responsabilidade com o humano em sociedade.
A ENFERMAGEM E A ÉTICA DA RESPONSABILIDADE
Para os efeitos aplicativos das éticas na Enfermagem, pode-se afirmar que a ética teleológica determina o que é correto de acordo com uma certa finalidade que se pretender atingir. Ou seja, procura o êxito da ação. Já na ética deontológica, a análise das consequências de um ato ou comportamento não deve influir no julgamento moral sobre as ações das pessoas; orienta-se pela convicção.
Os postulados da ética deontológica respondem pelo vir-a-ser, mas não totalmente pelas tomadas de decisões teleológicas no âmbito das organizações da saúde. A proibição à exclusividade da própria conservação sugere a ética da responsabilidade, com o intuito de superar a noção do êxito e da convicção.
A ética da responsabilidade é pautada como o eixo desta reflexão por entender que ela constitui uma referência para o cuidado em Enfermagem. A responsabilidade produz efeitos integrativos da dignidade humana, ponderando circunstâncias concretas do cuidar e tomar decisões razoáveis, prudentes e equitativas.
Ao refletir sobre a ética da responsabilidade, reconhecemos que uma ética em Enfermagem precisa ser construída no contexto ético da sociedade, ou seja, reconhecer suas responsabilidades em termos de saúde e da vida de forma mais abrangente, incluindo aí as perspectivas políticas da sociedade e da profissão. A Enfermagem, diferentemente da deontologia médica, apresenta características, no contexto de suas responsabilidades, de comprometimento com processo de recuperação da saúde e está motivada pelo interesse recíproco. Isto pode ser visualizado, quando da sustentação e o apoio ao cliente como ser humano, da atividade de Enfermagem na realização de trabalhos orientados para o alcance da melhoria da qualidade dos serviços de saúde (cooperação interprofissional e intersetorial) bem como subsidiando o processo de tratamento. Estas duas características – reciprocidade e cuidado em ambiente organizacional – requer pensar uma nova ética em Enfermagem.
Pensar uma nova ética em enfermagem é antes de tudo reconhecer o valor desta prática profissional para a sociedade. É pensar na saúde como um bem, compreendendo as políticas sociais e no que elas interferem na vida coletiva, reconhecer que o cuidado de enfermagem se convalida no outro e que o valor transcende ao econômico.
COMENTÁRIOS FINAIS
Nesta perspectiva, esta reflexão apresenta alguns aspectos da ética em Enfermagem sob a ótica da prática e da responsabilidade, entendendo que a ética se constrói no tempo e na história, transmite-se e enriquece-se ao longo da vida da humanidade ao mesmo tempo em que se apresenta como um acordo do homem (sua consciência) com ele mesmo, com a sociedade e com o mundo da vida. Intenta, assim, relacionar a reflexão ética a questões de Saúde Pública, a fim de contribuir para a visibilidade da enfermagem no que tange ao desenvolvimento de políticas de saúde.
Por outro lado, essa reflexão contrapõe-se às visões que intentam reduzir o processo saúde-doença a critérios e a fatores exclusivamente biologicistas (determinismo genético-biológico), esquecendo as dimensões psicológicas, socioeconômicas e culturais da pessoa e dos grupos humanos na reflexão ética sobre a saúde das pessoas e das comunidades. O que se
percebe é que a transposição da racionalidade moderna para a assistência à saúde, determinou uma crescente compartimentalização do sujeito, permitindo, de um lado, o avanço do conhecimento acerca do corpo biológico e de intervenções precisas neste âmbito, e de outro, o distanciamento cada vez maior entre profissionais/ instituições de saúde e usuários. Tal processo acaba determinando uma compreensão do fenômeno saúde-doença cada vez mais distinto para um e outro, numa dependência cada vez maior dos usuários dos serviços de saúde em relação ao saber profissional e numa participação cada vez menor nas decisões acerca de suas vida e sua saúde.
Esta reflexão fundamentou-se na pressuposição de que tanto a Enfermagem quanto enfermeiros, são basicamente seres em processo e cujos corpos se situam em um mundo que é ao mesmo tempo físico, social, moral e político. Portanto, esses profissionais estão localizados em uma tradição cultural específica que supre o estoque de funções sociais, estruturas, modelos e metáforas que são o modo de apreender o mundo, compreendê-lo e raciocinar sobre ele. Assim, os julgamentos morais ocorrem nesse panorama biológico-cultural e do imaginário das pessoas. E por fim, como síntese mais completa, a narrativa desempenha o papel de organizar nossa identidade e de avaliar nossos cenários ao fazermos escolhas morais.
Nessa linha de raciocínio, o enfermeiro se confronta e lida construtivamente com desafios da doença e dele mesmo que surgem em seu dia-a-dia. Daí que não podemos meramente negar as tradições sócio-morais, pois estas, em grande parte, definem nossa sensibilidade e sem nossa tradição nos arruinaríamos. O que nós devemos fazer é alterar aspectos de nossa tradição para fazê-los consistentes com nossos conhecimentos, pois esse é o caminho como a humanidade dá sentido às coisas e os seres – sob cuidado ou não - são motivados para agir. Portanto, de uma ética criadora de valores a partir dos valores existentes.

REFERÊNCIAS
ARCHER, L.; BISCAIA, J.; OSWALD, W. (Coord,). Bioética. Lisboa: Editorial Verbo, 1996.
CHOI, K.; CHO H. H. Effects of teaching ethical issues on Korean school students attitudes towards science. J Biol Educ. 2002; 37 (1): 26-39.
DWORKIN, R. El domínio de la vida. Barcelona: Ariel, 1998.
FORTES, P.A. de C. Ética, saúde e bioética: um convite à reflexão. São Paulo: Faculdade de Saúde Pública/USP, 1997. Série Monográfica, n. 8.
IORO, G. Due studi sull‘umanesimo. Cassino: Editrice Garigliano, 1987.
JONAS, H. El principio de responsabilidad. Barcelona: Heerder, 1995.
KUNG, H. Projeto de ética mundial. São Paulo: Paulinas, 1992.
MEULEN, R.; ARTS, W.; MUFFELS, R. Solidarity and medicine. Netherlands: Klwer Academic Publishers, 2001.
PINTO, T. M. Filosofia em enfermagem: algumas reflexões. Pelotas: UFPel, 1998.
SEN, A. Desenvolvimento como liberdade. São Paulo: Cia das Letras, 2000.
SOUZA, M. de L.; PRADO, M. L. Innovaciones y avances en el cuidado de enfermería: osadia e irreverência para el acto de creación. In: Cometto MC, Longoni G.Anais do XVI Congreso Argentino de Enfermería; 2002 Out 2-7; Córdoba, Argentina. Córdoba: Asociación de Enfermería de Córdoba/ Federación Argentina de Enfermería, 2002. p. 13-8.
VÁSQUEZ, A. S. Ética. 13. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1992.
WENDHAUSEN, A. A construção da subjetividade nos serviços de saúde: da sujeição a autonomia solidária. In: Texto Contexto Enferm. 2000 Ago-Dez; 9(3): 54-73.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Principais heresias

1. Gnosticismo: acreditava que as almas foram aprisionadas neste mundo por um deus imperfeito. Rejeitava o corpo e o mundo material e defendia a dualidade entre matéria e espírito e entre bem e mal. O mundo material deve ser destruído pelo espiritual. Os homens se dividem em categorias: pneumáticos (salvos), psíquicos (podem salvar-se ou não) e hílicos (não se salvam).
2. Donatismo: fundada por Donato de Casas Negras, essa heresia sustentava que seria traição a Igreja, uma comunidade perfeita e sem pecadores, ter contato com a autoridade civil. Os sacramentos só valem se ministrados por pessoa digna.
3. Maniqueísmo: fundada pelo bispo persa Mani. Misturava cristianismo com religião oriental, sobretudo zoroastrismo e defendia a dualidade bem (luz) e mal (trevas), ambos poderosos. A alma ascende à luz se abstendo de comer carne, de conversas impuras, da propriedade, do trabalho e do casamento.
4. Arianismo: fundada por Ário, sacerdote de Alexandria. Defendia que toda honra e toda glória devem ser dadas a Cristo, mas não à divindade, ele é filho de Deus, mas não é Deus.
5. Nestorianismo: fundada pelo arcebispo, ou patriarca, de Constantinopla, Nestório. Ensina que em Cristo existem duas naturezas, porque ele é duas pessoas: humano (filho de Deus) e divino (Logos). Maria não é mãe de Deus.
6. Pelagianismo: doutrina do monge inglês, Pelágio. Diz que o pecado original não atingiu a humanidade toda e que o homem é capaz de escolher, por si só, entre o bem e o mal, sem o auxílio divino (a graça).
7. Adocionismo: crença defendida por Teodoro, bispo de Mopsuéstia, segundo a qual Cristo, em sua natureza humana, é filho de Deus só por adoção.
8. Apolinarismo: crença defendida por Apolinário, bispo de Laodiceia. O corpo de Jesus seria humano, apenas a sua mente seria divina.
9. Docetismo: corrente de pensamento que defendia que tanto o corpo de Jesus quanto a sua crucificação foram ilusão, na verdade Ele era espírito puro e não morreu.
10. Monofisismo: crença de que Cristo tinha só uma natureza, pois a sua humanidade foi absorvida pela divindade. Entendia essa heresia que o Espírito Santo foi uma criação do Filho, e não passava de servo do Pai e do Filho.

domingo, 2 de fevereiro de 2014

Conteúdo de Filosofia na UEL

CONTEÚDO
Tema Introdutório Básico
A passagem do Mito para o Logos no surgimento da Filosofia.

1º Eixo Temático: Problemas Políticos e Éticos na Filosofia
Problema político: Estado, sociedade e poder.
Questões de referência: a questão da democracia; a questão da constituição da cidadania; a questão do jusnaturalismo e contratualismo; a questão do poder.
Autores de referência: Aristóteles, Hobbes, Locke, Rousseau, Maquiavel e Habermas.

Problema ético: Liberdade, emancipação e dever.
Questões de referência: a questão da justiça; a questão da liberdade e autonomia.
Autores de referência: Platão, Aristóteles, Rousseau, Kant, Spinoza e Habermas.

2º Eixo Temático: Problemas Epistemológicos na Filosofia

O problema da ciência, conhecimento e método na Filosofia.
Questões de referência: a questão da sensibilidade, razão e verdade; a questão do método; a questão da ciência e a crítica ao positivismo.
Autores de referência: Platão, Aristóteles, Descartes, Hume, Galileu, Francis Bacon, Kant e Popper.

O problema da relação entre ciência e técnica: a racionalidade instrumental.
Autores de referência: Adorno, Horkheimer, Habermas.

3º Eixo Temático: Problemas Estéticos na Filosofia 
O problema do belo e da experiência estética.
Questão de referência: a questão da mímesis.
Autores de referência: Platão e Aristóteles.

O problema da relação da arte com a sociedade: a Indústria Cultural e a cultura de massa.
Questões de referência: a questão da reprodutibilidade técnica da arte; a questão da arte e da Indústria Cultural.
Autores de referência: Adorno e Benjamin.

Programa de Filosofia UFPR 2013

PROVA ESPECÍFICA DE FILOSOFIA - PROCESSO SELETIVO 2012/2013

-
 Para acessar diretamente a lista das obras, clique aqui

ESCLARECIMENTOS

As questões da prova específica de filosofia versarão sobre temas e problemas de diferentes áreas da filosofia (ética, estética, epistemologia e filosofia política) e serão formuladas a partir de textos clássicos da história da filosofia, de diferentes épocas e orientações teóricas. Na avaliação, levar-se-á em conta a habilidade do candidato para identificar e compreender teses, argumentos, conceitos, polêmicas e problemáticas filosóficas presentes nos textos ou deles decorrentes. Será também requerido do candidato que revele conhecimento das circunstâncias históricas mais imediatas da produção e da recepção dos textos em análise, mediante a consideração das suas interlocuções com a tradição filosófica e cultural.

A prova de filosofia pretende, portanto, aferir a competência dos candidatos numa prática que é, sob qualquer perspectiva que se encare a formação filosófica no ensino médio, rigorosamente indispensável: a leitura de textos filosóficos. Os pressupostos pedagógicos e filosóficos dessa orientação para a prova são (i) que as habilidades acima descritas constituem instrumentos universais para exercício da leitura reflexiva e crítica de textos filosóficos e (ii) que aquelas habilidades poderão ser despertadas, aprendidas e aperfeiçoadas independentemente de os autores ou os textos analisados serem aqueles indicados por este programa.

Portanto, as indicações bibliográficas para a prova de filosofia que aqui se farão não devem ser encaradas como o resultado da identificação de um minimum de leituras que o estudante do ensino médio deve realizar durante as aulas de Filosofia. Visto que o objetivo não é averiguar conhecimentos cumulativos e textuais da história da filosofia, mas a capacidade de compreender e discutir textos filosóficos no contexto das questões e dos debates clássicos da filosofia, muitos outros tipos de formação e de preparação prévia são compatíveis com os objetivos da prova, mesmo aqueles que não contemplem o estudo das obras abaixo indicadas.

Nesse sentido, cabe ressaltar que essa orientação básica adotada para a prova é plenamente compatível tanto com as linhas praticadas no ensino privado quanto com as diretrizes que a Secretaria de Estado da Educação está desenvolvendo para o Ensino Médio, tendo em vista que o objetivo não é o conhecimento de um ou outro filósofo, mas o desenvolvimento de ferramental básico para leitura e compreensão de quaisquer textos filosóficos.

Sendo assim, as questões da prova serão circunstanciadas em determinados textos filosóficos e, para uma boa preparação que contemple uma maior familiaridade com os objetos de análise nas questões e com a terminologia consagrada pelos textos empregados na sua formulação, recomenda-se a leitura prévia desses textos. Os textos indicados são os seguintes:
1.     ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco – Livro I. Gama Kury, M (trad.). Nova Cultural, São Paulo, 1996. (Coleção Os Pensadores).
2.     DESCARTES, R. Meditação Metafísicas – Meditação Primeira e Meditação Segunda. Guinsburg, J. e Prado Jr., (trad.). Nova Cultural, São Paulo, 1988. (ColeçãoOs Pensadores).
3.     NIETZSCHE, F. “Sobre Verdade e Mentira no Sentido Extra-moral”. In: NIETZSCHE. Obras Incompletas. Torres Filho, R. (Trad.). Nova Cultural, São Paulo, 1991. (Coleção Os Pensadores).
(Obs.: As referências feitas aqui a determinadas edições das obras indicadas têm como objetivo apenas estabelecer um padrão; elas podem ser substituídas, sem qualquer prejuízo, por outras no mesmo nível ou ainda melhores, quando for o caso. São públicos e notórios os equívocos grosseiros cometidos em determinadas traduções de textos filosóficos fartamente disponíveis no mercado editorial brasileiro. O objetivo da indicação dessas edições é apenas possibilitar um patamar mínimo de rigor e qualidade acadêmica para a avaliação das edições a serem utilizadas na preparação para a prova.)

Conteúdo de Filosofia na UEM

FILOSOFIA
As questões de Filosofia têm por objetivo aferir o conhecimento do candidato quanto aos aspectos teóricos e metodológicos, no que se referem à história, às escolas, aos autores, sistemas filosóficos e conceitos fundamentais, bem como o conhecimento de domínios específicos, dentre os quais, a Lógica, a Ética, a Estética, a Filosofia Política, a Filosofia da Ciência. Para esse fim, estrutura os conteúdos segundo as Diretrizes Curriculares Estaduais do Paraná.

1. Mito e Filosofia
1.1 Utilidade da filosofia.
1.2 Do mito ao saber filosófico.
1.3 Sócrates e os sofistas.
1.4 A filosofia helenista.
1.5 Platão: mundo sensível / mundo inteligível.
1.6 Aristóteles: metafísica e causalidade.

2. Teoria do conhecimento
2.1 Senso comum, bom senso.
2.2 O ceticismo.
2.3 O racionalismo.
2.4 O empirismo.
2.5 O criticismo.

3. Lógica e pensamento

4. Ética
4.1 Ética e moral.
4.1.1 Liberdade e determinismo.
4.1.2 Ação e verdade.
4.2 A Ética no período clássico.
4.3 A Ética no período medieval.
4.4 A moralidade em Kant: o imperativo categórico.
4.5 O utilitarismo.
4.6 A Ética contemporânea.
4.6.1 A bioética.
4.6.1.1 O meio ambiente
4.6.2 Direitos humanos.
4.6.3 Responsabilidade social.  
4.7 Existencialismo. 

5. Filosofia política
5.1 A pólis e a formação do cidadão.
5.2 Política medieval.
5.3 Contratualismo clássico.
5.4 Republicanismo.
5.5 Direitos público e privado.
5.6 Estado e sociedade civil.
5.6.1 Socialismo / liberalismo.
5.7 A escola de Frankfurt.

6. Filosofia da Ciência
6.1 A Ciência na História
6.2 Ciência e poder.
6.3 Os mitos da ciência.
6.4 O positivismo.

7. Linguagem e cultura

8. Fenomenologia

9. Estética
9.1 Conceitos fundamentais da Estética.
9.1.1 Imitação e expressão.
9.1.2 Juízo de gosto e teorias do gênio.
9.1.3 O belo e o sublime.

9.1.4 A indústria cultural.